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Gervásio Paulus*
Estamos vivendo uma mudança época, mas fundamentalmente vivemos uma época de mudanças. O século que ficou para traz foi marcado por muito desenvolvimento e pouca sustentabilidade. O espetacular avanço verificado em diferentes campos do conhecimento científico e tecnológico permitiu conquistas importantes, mas muitas vezes tomou um rumo que coloca em risco a própria sobrevivência da humanidade.
Como conseqüência, o ar está ficando mais poluído, as águas mais contaminadas e até o alimento que consumimos muitas vezes chega às nossas mesas envenenado. Dirão alguns que esse é o preço do progresso, que o importante é o crescimento econômico, o aumento do consumo, etc. Mas sabemos todos que crescimento nem sempre se traduz em desenvolvimento, que em muitos casos os benefícios gerados não são para todos e que, a persistir o atual ritmo de degradação dos recursos naturais, a sustentabilidade global estará cada vez mais comprometida.
A pergunta que se impõe fazer neste momento decisivo do processo civilizatório é: será mesmo que este é o único caminho? Será que não somos capazes de propor e construir alternativas de desenvolvimento, que conduzam a um uso mais parcimonioso dos recursos naturais? Acreditamos que sim, e que os principais limites a essa mudança nos rumos do desenvolvimento não são apenas de natureza tecnológica, mas que respondem a imperativos econômicos que não raro se sobrepõem aos interesses sociais e ambientais.
Por onde começar? Talvez o primeiro e decisivo passo seja uma mudança no foco, ou seja, na maneira de perceber o meio no qual estamos inseridos e do qual somos parte inseparável (ainda que nem sempre nos apercebamos disso). Vejamos um exemplo concreto. Ao andarmos de carro em uma rodovia não raro nos deparamos com uma placa alertando os motoristas: ´Devagar! Curva perigosa!´ Não cabe nenhuma dúvida quanto à utilidade deste aviso. Mas uma reflexão um pouco mais profunda nos remete à seguinte pergunta: será mesmo que existem curvas que são perigosas? Não seria o procedimento do motorista que se revela perigoso, frente a uma determinada característica do meio físico, que naquele local se manifesta como uma curva? Se aceitarmos, como o bom senso sugere, que não existe intencionalidade na presença de uma curva em relação à nossa passagem pela estrada, então nos resta assumir que trata-se na verdade de uma relação perigosa que o ser humano estabelece com a conformação do relevo. De forma semelhante ocorre com as enchentes, cuja ´culpa´ é sempre do excesso de chuva, e nunca de uma ocupação humana e espacial mal ou não planejada, do desmatamento e do uso inadequado das terras. Com isso queremos dizer que, quando falamos em meio ambiente estamos na verdade nos referindo à maneira como nós nos relacionamos com o meio circundante, inclusive com as demais pessoas que vivem nesse meio. Em outras palavras, o que tem que ser sustentável não é apenas determinado rio, floresta, espécie animal ou vegetal, mas a relação ser humano-meio.
É na postura de dominação, de separação do ser humano do ambiente que reside a raiz dainsustentabilidade do atual modelo de desenvolvimento, que ao privilegiar critérios exclusivamente econômicos, dilapida os recursos naturais, finitos e escassos, comprometendo a sustentabilidade. Um novo paradigma emergente remete a um sentimento de pertença, de coexistência, e não de dominação do ambiente, do qual, nunca é demais lembrar, estamos todos incluídos. Não se trata apenas de ação sobre, mas de interação com o meio.
No âmbito do desenvolvimento sustentável, é necessário considerar que a sua construção está inserida em contextos locais e regionais, os quais são: econômica, ambiental, social e culturalmente definidos, ressaltando a importância do caráter participativo de tais processos. No plano das atitudes cotidianas individuais, nos remete a um conjunto de valores e atitudes que dizem respeito ao nosso estilo de vida.
O que move a sociedade consumista não são as necessidades, mas é a criação permanente de novos desejos (ainda que a satisfação destes para poucos resulte na privação das necessidades básicas para muitos). Nesta perspectiva, gestos aparentemente prosaicos como a separação e reciclagem de lixo e evitar o desperdício adquirem significação não tanto pelo impacto direto e imediato que possam representar, mas especialmente pelo seu potencial de desencadear mudanças moleculares na consciência individual e coletiva em relação aos problemas sócio-ambientais. Mais do que de hábitos, trata-se de postura, de valores. É por isso que uma mudança maior passa necessariamente pela dimensão educativa.
À medida que percebemos a questão ambiental para além da defesa desta ou daquela espécie ameaçada de extinção, mas como resultante das relações que vamos construindo com o meio, incluindo obviamente as relações sociais, então é essencial que cada um de nós faça sua parte, seja em casa, no local de trabalho, no bairro, município ou região onde vivemos, e que o façamos à maneira da máxima adotada pelos ambientalistas: ´pensar globalmente, agir localmente´. Afinal, a consciência ambiental só adquire real significação quando se traduz em prática cotidiana.
* Engº Agrônomo, extensionista rural e presidente da ASAE
Associação dos servidores da ASCAR-EMATER/RS
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